Eu nunca tive muitos amigos. Nunca me dei bem com os seres humanos, na minha infância eu detestei de todo coração todas aquelas garotas frescas que adoravam a cor rosa. Argh! Que nojo eu tinha delas, viam um animal e morriam de medo. Sempre fui um tanto estranha, preferia estar cuidando de um girino a estar com aquelas pirralhas gritantes, sei que sempre tive uma relação afetiva grande com a natureza, na medida em que crescia, mais enlouquecia. Sou piradinha do juízo até hoje, não vejo o mundo como todos veem, não me intitulo de estranha por ser assim, me intitulo de menina da visão mais sofisticada, apenas. Para mim, uma árvore nunca foi apenas uma árvore, a árvore foi semente que foi jogada na terra, cultivada com muito amor, abraçada por mim todos os dias e depois serrada para virar papel, árvore era de onde tiravam o papel para os humanos escreverem “Cuidem das árvores” enquanto cortavam milhões de árvores para anunciar que tivéssemos cuidado. Para mim água não é apenas água, água é o que brota do chão, vira poço e depois lava minha mão. Eu sei, eu sei, sou louca sim, mas se não está curtindo o texto por que chegou até aqui? Eu estou enrolando assim para chegar ao momento em que passei a gostar dos humanos, estou tentando dizer, soletrar ou até desenhar minha misantropia, sei que na medida em que cresci fui amando apenas livros, nada de pessoas, ainda. Porém, certo dia aconteceu que conheci alguém que veio para me cativar! Eis que surgiu meu melhor amigo, era algo totalmente novo para mim. Eu não costumava dividir minhas histórias com ninguém, sei que de uma forma ou de outra nos tornamos amigos, sabe-se lá como ou por que; sei que somos unidos. Já fiz muita coisa com ele, dominei as ruas da cidade de bicicleta, levei-o ao meu lugar preferido na cidade, falei tudo que devia e o que não devia também. Sempre brigamos, também não sei por quê. Somos implicantes e um sempre quer estar mais certo que o outro. É isso que adoro nele. Ele sempre está comigo e eu sempre estou com ele, carrego-o no meu coração sempre. Quando estou deprimida é dele que lembro porque sei que com ele o riso é garantido, ele é meu estoque de felicidade. Eu o amo tanto! E esse é o problema, eu o amo. Mais do que devia. Você sabe quando você se apaixona pelo seu melhor amigo? É uma mistura tão grande. Acho que não suportaria perdê-lo, jamais. Agora estamos em conflito, dizemos “oi” e nada mais. Corta-me o coração saber que meu confidente e eu estamos agindo assim, eu o sinto indo embora. Ele é a pessoa que eu sempre desejei que ficasse. É a pessoa que eu não consigo ver partir. Dá saudades, muitas saudades! Sempre me pego pensando em momentos, me flagro pensando no antes, me afogo e esqueço-me do agora. Mas, me diga: como não pensar no que éramos quando estamos deixando de ser até colegas? Não sei se para ele é assim, sei que em mim incomoda. E eu sei que mais uma vez a culpa foi minha, sempre é, as pessoas que mais amo sempre acabam escorrendo pelos meus buracos, furos, vazios que nunca preenchem e só aumentam ao passo que perco as coisas que mais amo. Eu não sei como chegamos aqui, não sei como tudo se acabou, sei que é ruim e que se eu pudesse mexer no tempo, ah… eu cuidaria um pouco mais dele e não deixava ninguém rouba-lo de mim. Por ele eu choro todos os dias, como antes sorria. Sem ele minha vida fica tão estranha, talvez porque gosto é daquele jeito dorminhoco e comilão, abusado e sem noção que só ele tem. Eu sinto por ele algo que ainda não tem nome, é mais que amor, é uma mistura de algo com sei lá o que, ultrapassei o nível de paixão-por-melhor-amigo para algo que não tem nome. Eu não falo muito com ele, apenas observo. Observo-o sorrindo porque para ser feliz preciso lembrar que ele está feliz, mesmo sem mim. Eu o amo tanto! Não somos e nunca seremos os de antes, mas nada muda o que sinto e se eu pudesse voltar tudo que vivi, certamente escolheria reviver os momentos que passei com ele, porque estes sim foram os melhores da minha vida. Acho que nunca terei um novo melhor amigo porque ele é para sempre e ninguém nunca conseguirá ser como ele, nem eu jamais conseguirei ser com alguém o que fui com ele. Eis aqui a historia da primeira vez que amei um ser humano além do que achava possível.
— Jéssika Monteiro
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